
Os avanços na Dermatologia vêm ampliando as possibilidades de tratamento para pacientes com queda de cabelo e diferentes doenças do couro cabeludo. Entre as estratégias que ganham espaço estão tecnologias como lasers, fotobiomodulação, microagulhamento, Microinfusão de Medicamentos na Pele (MMP®), mesoterapia e tratamentos injetáveis.
O tema integrou as discussões do 79º Congresso da Sociedade Brasileira de Dermatologia (SBD), que reuniu mais de três mil especialistas para abordar evidências científicas, aplicações na prática clínica e atualizações regulatórias relacionadas aos tratamentos capilares.
Apesar da evolução das técnicas, médicos dermatologistas reforçam que o primeiro passo diante das queixas relacionadas aos cabelos e ao couro cabeludo continua sendo identificar corretamente a causa. A queda de cabelo é um sintoma frequente e pode estar associada a diferentes condições, mas o paciente também pode procurar avaliação por sinais como rarefação dos fios, aumento da transparência do couro cabeludo ou coceira.
Diferenciar os possíveis motivos dessas manifestações é fundamental, já que calvície, eflúvio telógeno e doenças inflamatórias do couro cabeludo, por exemplo, apresentam mecanismos distintos e exigem abordagens específicas. O diagnóstico pode envolver exame clínico, tricoscopia e, quando necessário, exames complementares.
“A partir dessa avaliação, diferentes recursos podem ser incorporados ao tratamento. Entre eles está a fotobiomodulação, que utiliza laser de baixa potência (LLLT) ou LED. Em paralelo, há lasers que podem estimular processos de regeneração celular relacionados à atividade do folículo piloso e, consequentemente, favorecer o crescimento dos fios”, explica Dra. Bruna Duque Estrada, médica dermatologista da SBD.
Segundo Dra. Bruna, outros recursos importantes no tratamento da calvície e na recuperação após quadros de eflúvio telógeno agudo e na senescência capilar são a mesoterapia, que permite a aplicação localizada de medicamentos no couro cabeludo e a Microinfusão de Medicamentos na Pele (MMP), amplamente utilizada no Brasil.
Plasma Rico em Plaquetas (PRP) ganha espaço nas discussões sobre alopecia
Entre os tratamentos injetáveis que continuam sendo estudados está o Plasma Rico em Plaquetas (PRP). A técnica utiliza uma concentração de plaquetas obtida a partir do sangue do próprio paciente, com o objetivo de aproveitar moléculas biologicamente ativas liberadas pelas plaquetas. Embora o Conselho Federal de Medicina (CFM) tenha autorizado seu uso na ortopedia, o PRP ainda não possui autorização para uso na dermatologia, permanecendo como objeto de estudos e dependendo de regulamentação específica para essa finalidade.
A discussão sobre o PRP envolve tanto seus possíveis mecanismos de ação quanto a qualidade das evidências disponíveis e seu status regulatório, aspectos que fazem parte das atualizações apresentadas no congresso.
Na alopecia androgenética, uma das principais formas de queda de cabelo, ocorre uma miniaturização progressiva dos folículos. Na calvície masculina, por exemplo, os andrógenos, especialmente a di-hidrotestosterona (DHT), participam desse processo, fazendo com que os fios terminais se tornem progressivamente mais finos e curtos.
“O PRP não atua diretamente bloqueando a DHT, portanto, não substitui medicamentos antiandrogênicos como a finasterida ou a dutasterida. A proposta é diferente: utilizar as plaquetas como uma fonte concentrada de mediadores biológicos capazes de estimular e modular o ambiente do folículo”, afirma médico dermatologista da SBD Dr. Gabriel Cortez.
As plaquetas armazenam e liberam diferentes fatores de crescimento, entre eles PDGF, VEGF, TGF-β e EGF. Essas moléculas estão envolvidas em processos como proliferação celular, reparação dos tecidos e formação e remodelamento de vasos sanguíneos.
No contexto do folículo piloso, a hipótese é que esses mediadores contribuam para melhorar o ambiente ao redor do folículo e estimular sua atividade.
“Um dos mecanismos mais interessantes é a angiogênese. O VEGF, por exemplo, está relacionado à formação e manutenção da vascularização perifolicular”, explica Dr. Gabriel.
O folículo em crescimento apresenta alta atividade metabólica e depende de uma oferta adequada de oxigênio e nutrientes. Por isso, alterações na vascularização ao redor do folículo podem ter papel relevante na manutenção de sua atividade.
Além desse possível efeito vascular, o PRP também pode estimular a atividade proliferativa de células envolvidas no funcionamento do folículo. A proposta, portanto, não é substituir as terapias convencionais, mas atuar sobre mecanismos diferentes e, em determinadas situações, integrar uma estratégia terapêutica individualizada.
Cânulas e novas técnicas também fazem parte da evolução
A busca por procedimentos mais confortáveis e seguros também impulsiona o desenvolvimento de novas técnicas de aplicação. Entre os exemplos apresentados está o uso de cânulas para aplicação de medicamentos na região das sobrancelhas, uma alternativa que pode proporcionar maior conforto e segurança durante o procedimento.
“Essas tecnologias são ferramentas valiosas, mas seus melhores resultados dependem de indicação individualizada e diagnóstico correto”, ressalta Dra. Bruna.
A ampliação das opções terapêuticas traz também a necessidade de discutir quais procedimentos apresentam evidências suficientes para cada indicação e como devem ser incorporados à prática clínica.
No caso do PRP, a discussão envolve justamente a avaliação dos estudos disponíveis, os diferentes protocolos utilizados e o status regulatório da técnica no Brasil. Esses aspectos são importantes para que a utilização dos tratamentos esteja alinhada tanto ao conhecimento científico quanto às normas aplicáveis.
“O avanço da tricologia, portanto, não está apenas na criação de novas tecnologias, mas também na capacidade de selecionar, entre as ferramentas disponíveis, aquelas que apresentam melhor relação entre evidência, segurança e benefício para cada paciente”, conclui Dr. Gabriel.


