Microdoses de medicamentos



Microdoses de medicamentos

20 de outubro de 2020
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Atualização científica
A dermatologia é uma das áreas da medicina em que mais novidades são lançadas. E alguns tratamentos, quando bastante inovadores, recebem atenção imediata da comunidade médica, como é o caso da microinfusão de medicamentos na pele, ou MMP, como comumente é chamada. Idealizada em 2011 pelo médico dermatologista Samir Abache, o primeiro artigo sobre o assunto foi publicado na Surgical & Cosmetic Dermatology em 2013, e, em 2015, a técnica foi registrada no Instituto Nacional da Propriedade Industrial (Inpi).

Considerada uma nova e eficaz ferramenta de trabalho para especialistas da área, a MMP ainda é usada apenas na dermatologia, mas a possibilidade de ser aproveitada em outras especialidades é considerável, já que a técnica tem-se mostrado segura, eficaz e com excelente custo/benefício para o paciente e para o médico.

Embora, até o momento, apenas nove artigos sobre o assunto tenham sido publicados na literatura médica – um ensaio pré-clínico, dois ensaios-piloto clínicos randomizados, uma série de caso e cinco relatos de casos –, algumas conclusões já são bastante explícitas: a técnica tem efeitos adversos mínimos, sem repercussão para a saúde dos pacientes, e semelhante aos de outras técnicas de drug delivery ou intradermoterapia, com os quais os dermatologistas estão habituados em suas rotinas.

A preceptora do Serviço de Dermatologia da Santa Casa de Porto Alegre, Francine Costa, conta que The International Journal of Dermatology publicou em 2019 um estudo com o objetivo de responder à questão sobre a quantidade de medicação infundida com a técnica para, dessa forma, avaliar a segurança do procedimento. “Os autores chegaram a uma fórmula matemática que permite calcular a dose de medicação que está sendo infundida na pele do paciente. Verificaram, ainda, que essa dose infundida pela MMP é muito pequena. Além disso, mostraram na análise histológica da pele, ex-vivo, que a substância infundida se dispersa entre as fibras de colágeno sem causar um efeito expansivo”, pontua.

De fato, a segurança é o principal norteador para o desenvolvimento da técnica. Samir Abache assinala que embora para muitos o mais importante seja saber sobre a eficácia e a efetividade de um procedimento, o questionamento sobre a segurança sempre foi sua primeira preocupação. “O assunto ‘segurança da MMP’ ocupou boa parte do meu tempo de pesquisas. Publiquei os parâmetros para o drug delivery pela técnica MMP, recentemente referenciados pela agência do governo alemão German Federal Institute for Risk Assessment (BfR), pelo Departamento de Química e Segurança de Produtos. O dispositivo obteve registro em 2015, e, desde então, não existem quaisquer notificações de efeitos adversos na Anvisa. Em relação à eficácia e efetividade dos tratamentos da MMP, minha tese de doutorado está em vias de ser defendida, e a intervenção obterá o nível de evidência 1B em leucodermias puntatas e cicatrizes acrômicas. Numa rápida pesquisa na plataforma Brasil, identificamos 22 ensaios sobre a técnica. Ou seja, muita coisa está por vir. A técnica é um campo aberto para pesquisas”, esclarece.

Indicações e uso da MMP
A MMP é, segundo Abache, insuperável para repigmentar leucodermias puntatas e cicatrizes acrômicas – e há relatos de tricologistas que a utilizam com relativa frequência em tratamentos da alopecia androgenética, além do uso em casos de psoríase, alopecia areata, melasma, estrias, siringomas, campo cancerizável, cicatrizes e verrugas vulgares. A técnica, entretanto, só consegue resolver dermatoses que não possuem tratamentos efetivos.

Uma questão permanente que aparece ao se falar em MMP diz respeito à sua diferença da injeção de medicamentos com seringas ou drug delivery com roller, laser ou por via oral. Francine explica que a entrega de medicamentos na pele pela MMP ocorre em microdoses, de forma ativa, independentemente da sua natureza química (lipofílica ou hidrofílica) e do seu peso molecular.

“O medicamento se difunde no tecido sem causar um efeito expansivo como ocorre mediante a intradermoterapia pressurizada e a injeção com seringas. Além disso, com esta última técnica é muito difícil termos precisão na injeção de uma dose muito pequena e o bólus pode aumentar o risco de efeitos adversos locais. Em relação à MMP versus a administração oral de medicamentos, a primeira evita a biodisponibilidade limitada, a intolerância gastrointestinal e a metabolização de primeira passagem hepática de alguns medicamentos. Já o drug delivery com roller ou laser ocorre de forma passiva e depende da natureza química e do peso molecular do medicamento. A superfície da pele serve de interface para a penetração do medicamento, que pode diminuir a segurança microbiológica do procedimento. Além disso, uma injúria profunda com o roller pode causar um fluxo retrógrado do medicamento devido ao exsudato”.

Samir informa ainda que a farmacocinética dos medicamentos na MMP é linfática, diferindo da injeção convencional por seringas e agulhas, que é predominantemente sanguínea. Existem estudos, aliás, comprovando que a vacinação realizada com máquinas de tatuagem, mesmo injetando-se um volume muito menor, tem um poder de imunização muito maior. “O cisalhamento provocado pelo rápido microagulhamento do equipamento faz toda a diferença, proporcionando uma grande dispersão dérmica do medicamento, ao contrário da injeção com seringas. Comparativamente ao uso oral, conseguem-se efeitos clínicos surpreendentes com quantidade muito menor de drogas, reduzindo-se drasticamente os efeitos adversos”, enfatiza.

É importante lembrar, porém, que, assim como em relação a todos os procedimentos, é preciso avaliar o histórico de cada paciente e suas possíveis contraindicações. “No caso da microinfusão, elas se restringem aos efeitos adversos do medicamento a ser injetado. Também é contraindicada a intervenção nos locais previamente acometidos por doenças infecciosas, como, por exemplo, herpes. Já os pacientes portadores de valvulopatias cardíacas podem se submeter ao procedimento, desde que seja feita cobertura antibiótica profilática”, observa Abache.


Para que e por quem
Por se tratar de uma nova via de introdução de medicamentos, muitos entusiastas da técnica a utilizam para injetar preenchimentos, despigmentantes, toxinas e afins. No entanto, não é essa a história da MMP. O racional dessa técnica de drug delivery foi concebido com medicamentos já aprovados para uso intradérmico e para doenças de difícil resolução. Além disso, para executar a técnica, é fundamental que o médico possua conhecimento clínico dermatológico, farmacológico, anatomopatológico, visão em 3D da pele e habilidade manual.

 

 

 

 





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