Dermatologistas valorizam a discussão do atendimento humanizado ao público LGBT



Dermatologistas valorizam a discussão do atendimento humanizado ao público LGBT

6 de agosto de 2019
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JSBD – Ano 23 – N.03 – 04

O atendimento humanizado e direcionado para cada paciente é um dos principais valores defendidos pela medicina. Isso envolve todo tipo de paciente, incluindo os transgêneros – pessoas com as mesmas necessidades básicas de saúde de quaisquer outras, mas que experimentam muitas disparidades de cuidados, exigindo competências adicionais do profissional, sensibilidade e formação dedicada. Mesmo com avanços em ações e políticas públicas, as desigualdades são amplificadas pelo fato de que muitos pacientes relutam em interagir com o sistema de saúde devido ao preconceito e a discriminação com base na identidade e expressão de gênero, orientação e comportamentos sexuais. Tal fato também se manifesta em vários espaços da sociedade contemporânea.
 
Na Sociedade Brasileira de Dermatologia (SBD), as discussões sobre essa realidade estão cada vez mais em pauta, e a temática LGBT tem sido divulgada em seus encontros científicos. Um exemplo é a mesa de debate Saúde LGBT, do DermatoRio 2019, que abordará as infecções sexualmente transmissíveis (ISTs) na população LGBT, bem como os aspectos dermatológicos em pacientes transgêneros. Um dos participantes é o dermatologista Felipe Aguinaga, do Ambulatório de Dermatologia e Diversidade de Gênero, do Instituto de Dermatologia Professor Rubem David Azulay. Na palestra “Aspectos dermatológicos no paciente transgênero”, o médico levantará importantes questões para melhora na qualidade do atendimento ao paciente trans, como as complicações da hormonioterapia em homens e mulheres desse segmento, complicações relacionadas ao uso de binders e silicone industrial, dermatoses das neogenitálias, entre outros assuntos.
 
Ele comenta o atual preparo do dermatologista quanto aos cuidados de afirmação de gênero, seja por meio de medicina e procedimentos relacionados à transição ou pelo gerenciamento de complicações da terapia de afirmação hormonal:
 
“Nós, como dermatologistas, temos em nosso arsenal diversas ferramentas para auxiliar a comunidade transgênero em seu processo de transição. Procedimentos estéticos para feminização ou masculinização da face e do corpo, procedimentos para remoção ou crescimento de pelos, tratamento de cicatrizes cirúrgicas, manejo da acne, da alopecia e de outras complicações da hormonioterapia. O campo de atuação é amplo, e o dermatologista já está habituado a lidar com a maioria dessas questões no seu dia a dia. Temos, portanto, muito a oferecer à comunidade trans em sua busca por autoestima, qualidade de vida e saúde. O processo de afirmação de gênero tem inúmeras interseções com a pele, e nosso papel como especialistas na prestação desses serviços essenciais para essa população deve ser afirmado, divulgado e exercido com excelência”.
 
No entanto, ainda são muitos os problemas para alcançar esse alto nível esperado no atendimento do público trans, como encontrar com mais frequência literatura ampla sobre o assunto. “Os dermatologistas, em especial, têm uma perspectiva única e especial em relação às necessidades da população LGBT, tanto do ponto de vista clínico quanto estético. Conhecer seus aspectos dermatológicos específicos é essencial para prover uma assistência de qualidade. A literatura científica relacionada às questões dermatológicas desse grupo, porém, ainda é escassa, embora o número de publicações sobre o tema tenha aumentado nos últimos anos”, comenta.
 
Segundo Aguinaga, a maior parte dos artigos disponíveis sobre o assunto refere-se ao uso de preenchedores ilícitos e infecções sexualmente transmissíveis. “Mas os aspectos da saúde influenciados pela orientação sexual e pela identidade de gênero em que o dermatologista pode atuar são muito mais abrangentes”, salienta.

Medo de julgamento e discriminação impactam a morbimortalidade da população
O medo de ser julgado, a vergonha e a discriminação por identidade de gênero ou orientação sexual fazem com que esses pacientes evitem buscar assistência médica, o que impacta negativamente na sua saúde. De acordo com Aguinaga, pesquisas apontam que dois terços dos pacientes LGBT referem já ter sido vítimas de homofobia ou transfobia em serviços de saúde.
 
“A relutância em buscar assistência médica por esses motivos são algumas das várias barreiras que essas pessoas enfrentam e que impacta negativamente a morbimortalidade dessa população. É essencial a promoção de iniciativas educacionais para que os profissionais de saúde sejam capacitados e sintam-se preparados para lidar com esses pacientes e para fornecer a melhor assistência possível”, realça. Dessa forma, o dermatologista está mais bem preparado para atendê-los quando cria um ambiente em que o paciente se sinta bem-vindo e acolhido.
 
“Uma das grandes barreiras enfrentadas pela população LGBT é a dificuldade de encontrar médicos capacitados para lidar com suas questões particulares e sensíveis a suas demandas. Muitos pacientes resistem em procurar assistência médica por conta de experiências prévias insatisfatórias. Esse não é um assunto abordado na formação da maioria dos médicos; por isso é necessário um esforço extra para buscar esse conhecimento e manter-se atualizado. Felizmente, tem aumentado a disponibilidade dessas oportunidades educacionais, incluindo palestras sobre saúde LGBT nos congressos de dermatologia e artigos científicos nas principais revistas científicas dermatológicas”, ressalta.

Uma medicina que dialoga com a população sem distinção
Para viabilizar a excelência no atendimento dermatológico desses indivíduos, é fundamental que o profissional saiba que a orientação sexual, a identidade de gênero e os comportamentos sexuais são conceitos diferentes.
 
“É preciso ter sensibilidade na hora de colher essas informações, já que são muitas vezes clinicamente relevantes. Algumas recomendações simples têm amplo impacto na melhora da relação com esses pacientes: respeito ao nome social, usar pronomes corretos, utilizar formulários que sejam inclusivos e ofereçam opções de identidade de gênero não binárias. É fundamental tratar todos os pacientes com dignidade e respeito”, destaca.
 
Sobre a influência das interseções de gênero, raça, etnia, status socioeconômico nas disparidades de saúde das populações LGBT, Aguinaga comenta que a população LGBT é heterogênea, composta por indivíduos com identidades diversas e únicas. Logo, ao lidar com o paciente, o médico deve reconhecer suas experiências vividas, sem pré-julgamentos.
 
“Somente com uma abordagem interseccional de todas essas variáveis (identidade de gênero, raça, orientação sexual, status socioeconômico) são reconhecidos determinantes sociais de saúde, permitindo, assim, otimizar a assistência aos pacientes que atendemos”.

DermatoRio contemplará palestras sobre saúde LGBT
Segundo o médico, que ministrará a aula “Aspectos dermatológicos no paciente transgênero” a ser realizada na manhã do dia 13 de setembro, no DermatoRio 2019, o objetivo da apresentação é identificar e esclarecer conceitos e definições do campo de gênero e sexualidade, bem como a terminologia atualmente utilizada na literatura científica, além de abordar identidade de gênero como um determinante social de saúde.  
 
“Também vamos orientar sobre aspectos gerais na consulta do paciente trans e expor as principais questões enfrentadas pela população transgênero na esfera da dermatologia clínica: complicações da hormonioterapia em homens e mulheres desse segmento, complicações relacionadas ao uso de binders e de silicone industrial, dermatoses das neogenitálias, entre outros. Além disso, iremos compartilhar nossa experiência no Ambulatório de Dermatologia e Diversidade de Gênero, do Instituto de Dermatologia Professor Rubem David Azulay, no Rio de Janeiro”, informa.

 





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