A dermatoscopia no diagnóstico precoce do câncer da pele



A dermatoscopia no diagnóstico precoce do câncer da pele

5 de janeiro de 2021
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Entrevista


Renato Marchiori Bakos

Médico dermatologista, professor associado da FAMED/UFRGS, chefe do Serviço de Dermatologia/ Hospital de Clínicas de Porto Alegre – HCPA e coordenador do Departamento de Oncologia Cutânea da SBD

Nos últimos anos, inúmeros estudos têm demonstrado o crescimento na incidência de câncer em todo o mundo. Especificamente no Brasil, segundo a publicação "Estimativa 2020 – Incidência de câncer no Brasil", lançada pelo Instituto Nacional de Câncer (INCA) durante comemoração do Dia Mundial do Câncer, em fevereiro de 2020, o país terá 625 mil novos casos da doença a cada ano do triênio 2020-2022, sendo a maioria de pele – mais de 180 mil.

Embora esse aumento de casos acenda um alerta entre profissionais da saúde, é importante ressaltar um índice maior de indivíduos com diagnóstico precoce da doença. E a dermatoscopia é o método não invasivo que melhor auxilia na avaliação das lesões pigmentadas da pele. “A dermatoscopia é fundamental na avaliação de pacientes com lesões com suspeita de neoplasias cutâneas melanocíticas e não melanocíticas e no segmento de tumores benignos que façam diagnóstico diferencial com elas, minimizando o índice de biópsias desnecessárias. A técnica permite a visualização de componentes estruturais, vasos sanguíneos e distribuição de pigmento na epiderme, na derme papilar e reticular, criando, consequentemente, um novo mundo morfológico. Isto permite estabelecer uma correlação clínico-histológica in vivo capaz de aumentar a acurácia diagnóstica dos tumores avaliados”, explica Renato Marchiori Bakos, professor associado da FAMED/UFRGS, chefe do Serviço de Dermatologia/HCPA e membro da Sociedade Brasileira de Dermatologia e especialista no tema.

A seguir, o médico comenta sobre a importância da dermatoscopia para a avaliação de lesões da pele e como o treinamento de médicos dermatologistas na técnica é fundamental para um diagnóstico mais preciso.

JSBD – Como a dermatoscopia pode auxiliar na relação com o dermatopatologista quando avaliando casos potencialmente oncológicos?

Renato Marchiori Bakos – Deve ser rotina o contato próximo do dermatologista com o patologista. Pela correlação que os achados dermatoscópicos possuem com os histopatológicos, a descrição adequada de estruturas dermatoscópicas pode ser extremamente útil para o dermatopatologista. Há inúmeros casos em que a impressão clínico-dermatoscópica pode ser determinante para a interpretação histológica. Além disso, a dermatoscopia também pode guiar um sítio mais representativo para uma biópsia incisional, quando indicada.  

JSBD – Além do câncer de pele, quais são outras indicações significativas do método?

RMB – As indicações de uso da dermatoscopia têm crescido. Inúmeras publicações apontam seu benefício na prática dermatológico na detecção ou auxílio diagnóstico de um número significativo de sinais e sintomas na dermatologia. Em especial, podemos destacar as doenças infecciosas, as infestações e as doenças inflamatórias, assim como a avaliação de unhas e doenças de couro cabeludo e em áreas anatômicas especiais. Como já foi escrito em editoriais, o dermatoscópio pode ser considerado o estetoscópio do dermatologista, praticamente. E não somente pode como deve ser utilizado de forma constante na prática clínica, cirúrgica e cosmiátrica.

JSBD – Todo médico dermatologista pode realizar o exame em seu paciente ou é preciso algum curso ou especialização para tal?

RMB – Sem dúvida, todo dermatologista que recebeu treinamento em dermatoscopia deve realizar o procedimento. Existe natural curva de aprendizado. Isso ocorre no aprimoramento de qualquer técnica diagnóstica. Além do treinamento nos Serviços Credenciados, a participação em cursos e outras atividades paralelas também é importante. Possivelmente, o mais significativo seja a insistência em treinar o método no dia a dia, avaliando todo tipo de lesão, com isso, desenvolvendo uma lógica na observação das estruturas e padrões dermatoscópicos. Obviamente, sempre correlacionando os achados práticos com a teoria.     

JSBD – Quais equipamentos o médico dermatologista precisa para realizar a dermatoscopia no seu consultório?

RMB – Essa resposta depende muito dos objetivos do profissional e o grau de investimento que pretende aplicar na dermatoscopia. Hoje em dia, há uma variedade de aparelhos portáteis acessíveis e extremamente eficazes para o diagnóstico dermatoscópico da prática diária. Inclusive, eles podem ser acoplados em telefones celulares e câmeras digitais, permitindo a realização da dermatoscopia digital e, consequentemente, a captura e armazenamento de imagens. Dessa forma, um dermatoscópio portátil e um adaptador para câmeras e celulares são suficientes para a maioria das situações. Para aqueles que pretendem realizar exames mais complexos com dermatoscopia (como o mapeamento corporal de nevos), esses aparelhos também podem ser suficientes. Entretanto, os videodermatoscópios digitais agilizam e facilitam a realização desses exames.

JSBD – Qual a influência que a inteligência artificial poderá ter na avaliação dermatoscópica?

RMB – Estudos recentes têm demonstrado que os sistemas de inteligência artificial têm uma alta capacidade de classificar as imagens dermatoscópicas de forma acurada, muitas vezes superior à classificação humana isolada. Achados similares são observados em quase todas as áreas médicas que realizam diagnóstico por imagem.  É muito possível que os algoritmos de inteligência artificial em dermatoscopia se tornem grandes aliados dos dermatologistas nesse provável aumento da acurácia diagnóstica das neoplasias de pele. É importante ressaltar que muitos diagnósticos são formulados por meio de uma boa entrevista médica, um exame geral da pele (no qual as lesões potencialmente suspeitas são detectadas), por uma inspeção ectoscópica adequada (com palpação das lesões) e também pela impressão clínica da imagem dermatoscópica. Essas prerrogativas aliadas a algoritmos de AI abastecidos por incontáveis imagens dermatoscópicas em sua memória, possivelmente irão beneficiar os pacientes.    
 
JSBD – Mais algum comentário que julgue importante para os associados sobre esse assunto?

RMB – Como um entusiasta da dermatoscopia, diria a todos os associados que ainda não estão familiarizados com a técnica que não tenham receio em procurar treinamento e que a apliquem em sua prática clínica. Para aqueles que já a utilizam, é sempre uma satisfação aprender com casos inusitados e trocar experiências e conhecimentos.

 





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