A dermatologia e o paciente transgênero



A dermatologia e o paciente transgênero

2 de abril de 2021
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Com a palavra


Por Felipe Aguinaga
Coordenador do Departamento de IST & AIDS da SBD Nacional e da SBD-RJ e chefe do ambulatório de Dermatologia e Diversidade de Gênero, do Instituto de Dermatologia Professor Rubem David Azulay (RJ)

Segundo estudo publicado na revista Nature, em janeiro de 2021, estima-se que 1,9% da população brasileira (quase 3 milhões de pessoas) se identificam como transgênero ou não binário. Indivíduos transgênero são aqueles que não se identificam com o sexo atribuído ao nascimento, e, podem, por meio de modificações corporais (hormonioterapia, procedimentos estéticos, cirurgia de redesignação sexual), buscar exercer sua identidade de gênero de acordo com seu bem-estar biopsicossocial.

Os pacientes transgêneros compartilham muitas das mesmas necessidades de saúde da população em geral, mas possuem também demandas e características específicas. No entanto, as evidências sugerem que pessoas trans enfrentam uma carga desproporcionalmente alta de doenças, especialmente nos âmbitos da saúde mental, sexual e reprodutiva. A exposição à violência e discriminação também são maiores nesta população. Além disso, enfrentam barreiras ao acesso a cuidados e recursos determinantes da saúde, como educação, emprego e habitação. Essas barreiras são em grande parte atribuíveis à privação legal, econômica e social, e à marginalização e estigmatização que enfrentam na sociedade em geral.

Há um compromisso crescente de todas as áreas da Medicina para compreender e melhorar a saúde e o bem-estar das pessoas trans e outras minorias de gênero, e a Dermatologia, em seus diversos campos de atuação, desponta como uma especialidade essencial para atender a várias dessas demandas.

O primeiro passo médico no processo de transição para muitos indivíduos trans é a hormonioterapia, que tem efeitos significativos na pele e nos cabelos. Mulheres trans (male-to-female), que geralmente usam estradiol em combinação com um antiandrogênico (espironolactona ou um inibidor da 5-alfa redutase), apresentam redução rápida e persistente na produção de sebo e podem desenvolver xerodermia, prurido e alterações eczematosas. Os estrógenos também levam a uma redução na quantidade e densidade dos pelos faciais e corporais, que geralmente é um efeito desejado, porém insuficiente. A remoção de pelos a laser é um dos procedimentos mais procurados por essa população. Já entre os homens trans (female-to-male), que geralmente usam testosterona, são frequentes os quadros de alopecia androgenética e de acne. A necessidade de contracepção para prescrição de isotretinoína, bem como o preenchimento de termos de consentimento separados por sexo, impõe conflitos e peculiaridades no tratamento dessa patologia nesses pacientes.

Além da hormonioterapia, alguns indivíduos são submetidos a procedimentos cirúrgicos de afirmação de gênero. A busca por tratamento de cicatrizes inestéticas resultantes desses procedimentos, especialmente após mastectomia em homens trans, tem-se tornado cada vez mais frequente. Mulheres trans que se submetem à vaginoplastia podem necessitar de depilação pré-operatória do local doador. Além disso, diversas condições dermatológicas já foram relatadas em neogenitálias.

Um papel emergente dos dermatologistas na transformação física de pacientes transgêneros são os procedimentos estéticos minimamente invasivos. O uso da toxina botulínica e de preenchedores pode dar uma aparência mais masculina ou feminina à face. Infelizmente, devido a inúmeras razões, incluindo alto custo e acesso limitado, muitas mulheres trans buscam tratamentos ilícitos com pessoal não médico, especialmente o uso de silicone líquido industrial. Portanto, os dermatologistas também devem estar preparados para lidar com essas complicações. O cuidado dermatológico de indivíduos transgêneros não se limita apenas aos aspectos da transição. Mulheres trans, por exemplo, têm maior incidência de infecções sexualmente transmissíveis e de HIV, que se apresentam com manifestações dermatológicas.

Embora tenha sido feito algum progresso para promover a igualdade de assistência de saúde para a população transgênero, alguns desafios ainda se impõem. Em primeiro lugar, existem lacunas nas evidências sobre os determinantes e os indicadores de saúde das pessoas trans. Em segundo lugar, cuidados de saúde específicos para transgêneros devem ser mais bem compreendidos e as barreiras ao acesso devem ser reduzidas. Por fim, os mecanismos de exclusão social, bem como todas as formas de discriminação, devem ser considerados na determinação social de sofrimento e de doença e combatidos em todas as esferas da assistência à saúde.

Em conclusão, os dermatologistas devem desempenhar um papel crescente nos aspectos médicos e estéticos dos cuidados com pacientes transgêneros. A Dermatologia, ao longo de sua história, sempre voltou seu olhar e sua atuação para populações estigmatizadas e marginalizadas, sendo sensível às questões relacionadas à autoestima e identidade. Portanto, os dermatologistas são capacitados e possuem, em seu arsenal profissional, ferramentas e conhecimento que podem contribuir para amenizar as disparidades de saúde e melhorar a qualidade de vida dos pacientes transgêneros.

 





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