
O que deveria ser um procedimento estético para melhorar a autoestima acabou se transformando em um longo e traumático processo de recuperação para a jornalista Priscilla Aguiar. Após decidir realizar uma rinomodelação com uma biomédica esteta, ela desenvolveu necrose em três regiões do nariz e precisou enfrentar internação hospitalar, tratamento prolongado e anos de disputa judicial.
“Eu tinha programado uma viagem de férias e estava consumindo muito conteúdo no Instagram. Terminei optando, impulsivamente, por uma rinomodelação com uma biomédica esteta e sofri necrose em três partes do nariz porque o procedimento deu errado e a profissional não teve expertise de identificar e reverter o problema. Foram 11 dias de internação, com infecção, necrose e risco de cegueira, além de um ano em tratamento e mais de cinco anos lutando por justiça”, conta Priscilla.
A experiência mudou sua percepção sobre procedimentos estéticos e sobre a escolha do profissional responsável pela realização dessas intervenções.
“Da minha dolorosa situação, entendi que quem está mais apto a realizar esses procedimentos é quem tem plena capacidade de identificar e reverter problemas. No meu caso, só tenho hoje um nariz graças ao trabalho excepcional de uma dermatologista”, relata.
A partir do episódio, Priscilla decidiu transformar a própria experiência em um alerta para outras pessoas. Ela criou uma página nas redes sociais chamada Estética de Risco, onde reúne relatos de pacientes que sofreram complicações após procedimentos estéticos.
“Aceito relembrar todo o trauma para alertar outras pessoas. Recebo inúmeros relatos de complicações após procedimentos estéticos e a esmagadora maioria envolve profissionais de diferentes categorias que hoje atuam nessa área. A pergunta que fica é: será que todos têm a expertise necessária? Honestamente, eu não consigo confiar”, completa.
O relato da jornalista será um dos destaques do fórum “A Dermatologia brasileira e a defesa do Ato Médico: ciência, ética e proteção da sociedade”, que será realizado no dia 20 de março, das 13h30 às 18h, na Academia Nacional de Medicina (ANM), no Rio de Janeiro. O encontro é promovido pela Sociedade Brasileira de Dermatologia (SBD) e reunirá especialistas, representantes de entidades médicas e autoridades do judiciário para discutir os riscos associados ao exercício ilegal da medicina e o impacto desses casos na saúde pública.
A iniciativa integra o Pacto pela Medicina Segura, firmado em dezembro entre a SBD e o Conselho Federal de Medicina (CFM), que prevê ações conjuntas para fortalecer o exercício ético e legal da medicina e ampliar a proteção aos pacientes. O evento conta ainda com o apoio da Associação Médica Brasileira (AMB) e da ANM.
Para o presidente da SBD, Carlos Barcaui, o aumento de complicações decorrentes de procedimentos estéticos realizados por profissionais sem formação médica adequada exige uma resposta institucional e um debate mais amplo com a sociedade.
“Os problemas e complicações decorrentes da invasão e do desrespeito ao ato médico se tornaram um problema de saúde pública. Em meio a esse cenário, a Sociedade Brasileira de Dermatologia firmou um pacto com o Conselho Federal de Medicina para desenvolver ações concretas de enfrentamento, e este fórum é o primeiro passo desse compromisso”, afirma.
Ele explica que o objetivo do encontro é ampliar o debate sobre segurança do paciente e qualificação profissional.
“Queremos discutir o problema sob diferentes perspectivas, médica, jurídica e social, para reforçar a importância da qualificação profissional e da segurança do paciente”, completa.
A abertura solene contará com a participação do próprio presidente da SBD, Dr. Carlos Barcaui; do representante da ANM, Dr. Omar Lupi da Rosa Santos; da representante do CFM, Dra. Yáscara Pinheiro Lages Pinto; e do Diretor Cultural da AMB e Presidente da Associação Médica do Estado do Rio de Janeiro (SOMERJ), Dr. Rômulo Capello Teixeira (RJ).
A programação inclui ainda mesas de debate sobre os limites regulatórios na dermatologia estética, os riscos de procedimentos invasivos realizados por não médicos e os desafios jurídicos relacionados ao tema. Entre os convidados está o desembargador José Américo Penteado, que discutirá o impacto da questão para pacientes e para a sociedade.
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