Especialização na pandemia



Especialização na pandemia

11 de janeiro de 2021
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Especial Covid-19

Enquanto médicos e demais profissionais da saúde com experiência se uniram para enfrentar a Covid-19 em hospitais públicos e privados, médicos em início de carreira se viram do dia para a noite na linha de frente no enfrentamento da pandemia. Se por um lado a realidade imposta pode ter causado receios sobre o que realmente precisa ser aprendido durante uma residência, por outro é certo de que a expertise adquirida nesse período vai moldar parte da vida profissional de cada um no futuro.

A residente Paula Hitomi Sakiyama, do terceiro e último ano de dermatologia do Hospital Santa Casa de Curitiba, está na linha de frente da enfermaria e da Unidade de Terapia Intensiva (UTI) de um hospital exclusivo com 110 leitos para o atendimento de pacientes com Covid-19 – residentes de todas as especialidades foram escalados para prestar auxílio no hospital de campanha administrado pela Santa Casa de Curitiba durante a pandemia, exceto os do grupo de risco. Ela conta que auxiliar no atendimento de pacientes com a Covid-19 tem sido um grande desafio, já que além das dúvidas sobre essa nova doença, há também a adversidade de lidar com uma situação inusitada e muito diferente da prática dermatológica.

“Com a convocação, também foi necessário conciliar as atividades da residência com as do combate à pandemia, ambas com alto grau de exigência. Fico feliz em saber que estou contribuindo nesse momento tão difícil para todos. No entanto, é desanimador ver o descaso, a politização e o negacionismo de parte da população e do poder público em relação à pandemia”, pontua.

Já Breno Saty Kliemann, residente do primeiro ano da Santa Casa de Misericórdia de Curitiba, tem feito plantões em UTIs no Instituto de Medicina e Cirurgia do Paraná, um antigo hospital reaberto durante a pandemia para atendimento exclusivo de pacientes do Sistema Único de Saúde (SUS) com Covid-19. O hospital tem 50 leitos de UTI e 60 de enfermaria e, além do estudante, há outros nove residentes de dermatologia fazendo plantões nos setores de coronavírus. Profissionais de outras especialidades que também foram convocados para fazer esses plantões.

Ao contrário do que poderiam imaginar quando ingressaram no curso de Medicina, a rotina atual de Paula e Breno não previa o contato direto com um vírus com alto poder de transmissão como o coranavírus, tampouco o uso de pijama cirúrgico na entrada de hospitais, aventais para entrar e atender na UTI, máscaras, gorros, luvas, face shields (máscara protetora facial) etc. Entretanto, ambos estão vivenciando uma oportunidade de aprendizado que, na prática, poucos terão a chance.

Aprendizado impactado
Com o número reduzido de profissionais especializados e habituados ao atendimento de pacientes críticos, como os com experiência em clínica médica, urgência e emergência e medicina intensiva, médicos de todas as especialidades, residentes ou não, foram convidados para atuar na linha de frente do combate à pandemia. Entretanto, entre os residentes, embora estar na linha de frente do enfrentamento à doença possa ser avaliado como um grande aprendizado e desafio, a prática na especialidade escolhida pode sofrer danos.

Na dermatologia, como boa parte do aprendizado se dá por meio de atividades ambulatoriais e categorizadas como eletivas, a pandemia acabou “atrapalhando” a residência, já que as recomendações das autoridades sanitárias exigiam redução significativa dos atendimentos e procedimentos neste período, sendo priorizados apenas os casos de maior risco e que exigissem um acompanhamento contínuo – isso sem contar um aumento considerável de faltas nas consultas marcadas.

“Acredito que o prejuízo no processo de formação do residente durante a pandemia seja inevitável e exija adaptações para amenizar essa perda. Na minha residência, houve um aumento das discussões e aulas online e a modalidade de atendimento remoto foi iniciada para alguns pacientes com alto risco de exposição. No meu caso, com a ajuda dos preceptores, aproveitei o maior tempo livre para iniciar e dar continuidade aos trabalhos científicos. Além disso, me beneficiei da comodidade dos eventos online para participar de cursos e congressos que foram alterados de presenciais para remotos”, comenta Paula.

Para Breno, mesmo com as teleconsultas realizadas com alguns pacientes que demandavam cuidados especiais, como aqueles em uso de imunobiológicos, somadas as aulas teóricas durante o período, não há como substituir o aprendizado prático adquirido no dia a dia de consultas eletivas no ambulatório, ou de procedimentos eletivos. “Espero que com as vacinas consigamos recuperar esse aprendizado nos próximos anos e reduzir o impacto na formação”, diz.

Além disso, como a doença pode acarretar sintomas dermatológicos, os residentes tiveram a oportunidade de usar, em seu cotidiano, alguns conhecimentos aprendidos dentro da dermatologia. “O conhecimento das possíveis manifestações cutâneas associadas à Covid-19 pode auxiliar na identificação precoce da infecção e, consequentemente, na diminuição da sua transmissão”, explica Paula, complementando que “a aprendizagem na medicina é um processo constante e a atuação durante a pandemia reforçou a importância de habilidades essenciais na profissão, como autocontrole, responsabilidade e doação.

Uma rotina pesada
Estar na linha de frente no enfrentamento à Covid-19 tem sido uma rotina entre médicos de todas as especialidades, residentes, ou não. A médica Miriane Garuzi é uma delas. Atuando na UTI adulto do Hospital das Clínicas de Botucatu (FMB /Unesp) como plantonista há cinco anos e como diarista dois, está há dez meses, exclusivamente, na UTI Covid. Ela conta que atender pacientes críticos com o vírus tem sido bastante intenso e desafiador. “O quadro clínico muda muito rapidamente, bem como os protocolos de atendimento, conforme novas descobertas. A taxa de mortalidade é maior que a habitual na UTI, e é necessário lidar muitas vezes com a sensação de impotência. O contato com a família via videochamada ou telefone é diferente também, pois torna o acolhimento menos pessoal e mais difícil, uma vez que estratégias antes usadas, como, por exemplo, o toque, não estão mais disponíveis”, comenta. Ela conta que atender pacientes críticos com o vírus tem sido bastante intenso e desafiador.

“O quadro clínico muda muito rapidamente, bem como os protocolos de atendimento, conforme novas descobertas. A taxa de mortalidade é maior que a habitual na UTI, e é necessário lidar muitas vezes com a sensação de impotência. O contato com a família via videochamada ou telefone é diferente também, pois torna o acolhimento menos pessoal e mais difícil, uma vez que estratégias antes usadas, como, por exemplo, o toque, não estão mais disponíveis”, comenta.

Para a médica, apesar do desgaste diário ao trabalhar em uma pandemia, com tantos internados e alta taxa de mortalidade (associado a isso, há, ainda, as muitas fake news que impactam diretamente o trabalho) ser muito desgastante, o enfrentamento não trouxe aprendizado apenas para os com pouca experiência. Até mesmo para profissionais como ela, que tem uma carreira como intensivista, o atendimento a esse tipo de paciente tem ensinado ainda mais sobre manejo ventilatório e hemodinâmico, e sedoanalgesia. “Acredito que essa seja uma oportunidade de se desenvolver mais na profissão, tanto em relação aos conhecimentos médicos, quando na questão da relação médico-paciente/médico-família”, determina.

 





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