Envelhecimento saudável: algumas considerações



Envelhecimento saudável: algumas considerações

18 de junho de 2019
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JSBD – Ano 23 – N.02 – MARÇO-ABRIL

Por Luiz Gameiro
Departamento de Dermatologia Geriátrica da SBD

O envelhecimento é fenômeno mundial. Populações de países desenvolvidos e em desenvolvimento enfrentam inúmeros desafios para se adaptar a uma nova realidade. Globalmente, a expectativa de vida atinge níveis jamais vistos na história da humanidade. No Brasil, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), em 1900, a expectativa de vida média do brasileiro era de 33,7 anos. Atualmente está em 75,8 anos. Ou seja, em praticamente um século mais do que dobramos a esperança de vida ao nascimento!

Há que reconhecer o extraordinário avanço da ciência e tecnologia nesse processo. Contudo, diante de tamanha transformação demográfica (envelhecimento populacional), surgem novas e delicadas demandas relacionadas a políticas públicas para atender às necessidades da pessoa idosa. Esse grupo já representa 14,5% de nossa população e resulta em mais de 30 milhões de indivíduos com 60 anos ou mais, de acordo com o IBGE. Consequentemente, os desafios econômicos, sociais, culturais e de assistência à saúde são enormes não apenas para a esfera governamental como também para instituições acadêmicas e organizações privadas.

Como enfatiza o médico gerontologista Alexandre Kalache, países desenvolvidos passaram pelo processo de envelhecimento populacional gradualmente à medida que enriqueciam. Por outro lado, no mundo em desenvolvimento essa transformação tem sido rápida demais, e a geração de riqueza não acompanha esse ritmo. Estimativas da Organização Mundial da Saúde (OMS) revelam que, em 2033, o Brasil deve dobrar o número de idosos, e esse grupo etário representará 20% da população. Tal evolução terá ocorrido num prazo de apenas 23 anos, ao passo que países como a França demoraram 145 anos para atingir taxa igual.

Assim, diante desse cenário global de expressiva transformação demográfica, a OMS publicou em 2002 um importante documento sobre as bases de uma política de saúde focada no envelhecimento ativo. Essa expressão se refere ao “processo de otimização das oportunidades de saúde, participação e segurança, com o objetivo de melhorar a qualidade de vida à medida que as pessoas ficam mais velhas”. Como o processo de envelhecimento gera inúmeros desafios para governos e instituições, políticas que atendam às necessidades da pessoa idosa são fundamentais.

Demandas na área de serviço social e de saúde são árduas, uma vez que dependem fortemente de forte planejamento econômico, com estratégias de longo prazo. Com o passar dos anos, os custos dos serviços de saúde para indivíduos em processo de envelhecimento são mais elevados não apenas no que tange às despesas relacionadas a exames diagnósticos e tratamentos clínicos e cirúrgicos. Outros obstáculos complexos no atendimento desse grupo etário envolvem questões de segurança, transporte, acessibilidade, vida social, educação, oportunidades de trabalho (remunerado e voluntário), cultura, lazer e espiritualidade.

Vivemos num mundo disruptivo que está em constante transformação. Aprender é tarefa de todos; de pessoas de todas as idades e todos os dias… O universo digital democratizou o acesso à informação e tem estimulado o contínuo aprendizado da pessoa idosa, além de contribuir com a forma como ela se relaciona, consume produtos e se locomove. Cada vez mais rompem-se novos paradigmas, e aquele que associa a terceira idade a pessoa aposentada, doente e dependente está ultrapassado. Certamente, esse conceito não representa a maioria dos indivíduos com 60 anos.

No meu ponto de vista, envelhecer ativamente é conceito amplo e bastante interessante. Ao governo cabe, por um lado, a implementação de políticas públicas que garantam a qualidade de vida dessas pessoas, bem como, por outro, estímulo à adoção de hábitos saudáveis pela sociedade − quanto antes eles forem incorporados à rotina, melhor.

Ademais, diversos estudos sobre longevidade têm destacado a importância fundamental da vida social e dos vínculos afetivos na busca da senescência saudável e duradoura. Nessa linha de cuidado, a promoção da saúde e a prevenção de doenças tornam-se ainda mais impactante. Sabe-se que é menos custoso prevenir enfermidades do que tratá-las. Como exemplo, nos EUA, o Centro de Controle de Doenças (CDC, 1999) numa pesquisa concluiu: cada dólar investido em incentivos para prática de atividade física moderada gerou uma economia de mais de três dólares em gastos médicos. Programas focados no controle das doenças crônicas (físicas e mentais) devem ser prioritários. Tais medidas são essenciais na prevenção de incapacidades ou, pelo menos, na redução do processo de deterioração.

E o médico dermatologista, que papel poderia desempenhar nesse processo? As dermatoses aumentam com a idade, e estima-se que cerca de 2/3 dos indivíduos com mais de 65 anos têm alguma alteração dermatológica que mereça uma avaliação médica. Penso que para atender adequadamente a esse perfil de pessoas precisamos compreender o paciente idoso de forma integral. Saber ouvir a visão dele sobre a própria doença, quais são suas expectativas e medos sobre os procedimentos diagnósticos e possíveis abordagens terapêuticas. Explicar cuidadosamente ao doente e a seu cuidador/familiar é essencial. Outro aspecto importante é a importância de um exame completo do tegumento. As neoplasias aumentam com o passar dos anos e a prevenção do câncer da pele e/ou diagnóstico precoce é responsabilidade primordial do dermatologista. Por fim, destaco a evolução da cosmiatria que evoluiu muito nos últimos anos. Além disso, tem contribuído muito para melhorar a qualidade de vida e autoestima de uma população cada vez mais ativa, tanto no ambiente de trabalho quanto na sociedade.

Referências:

  1. Envelhecimento ativo: uma política de saúde / World Health Organization. Tradução Suzana Gontijo. Brasília: Organização Pan-Americana da Saúde, 2005. 60p.: il.
  2. United Nations. World population ageing 2015 [cited 2018 Nov 4]. Available from: http://www.un.org/en/development/desa/population/publications/pdf/ageing/WPA201 5_Report.pdf
  3. Envelhecimento com saúde. O Globo, Rio de Janeiro, 26 de agosto de 2018. Publicação apresentada pela Sociedade Brasileira de Dermatologia.
  4. Oliveira N. IBGE: expectativa de vida dos brasileiros aumentou mais de 40 anos em 11 décadas [citado 2018 out 15]. Disponível em: http://agenciabrasil.ebc.com.br/geral/noticia/2016-08/ibge-expectativa-de-vida-dos- brasileiros-aumentou-mais-de-75-anos-em-11.
  5. IBGE. Expectativa de vida do brasileiro sobe para 75,8 anos [citado 2019 mar 02]. Disponível em: https://agenciadenoticias.ibge.gov.br/agencia-noticias/2012-agencia- de-noticias/noticias/18469-expectativa-de-vida-do-brasileiro-sobe-para-75-8-anos.
  6. BGE. Número de idosos cresce 18% em 5 anos e ultrapassa 30 milhões em 2017 [citado 2018 out 15]. Disponível em: https://agenciadenoticias.ibge .gov.br/agencia-noticias/2012-agencia-de-noticias/noticias/20980-numero-de-idosos- cresce-18-em-5-anos-e-ultrapassa-30-milhoes-em-2017.
  7. Hitchcott PK, Fastame MC, Ferrai J, Penna MP. Psychological Well-Being in Italian Families: An Exploratory Approach to the Study of Mental Health Across the Adult Life Span in the Blue Zone. Eur J Psychol. 2017 Aug 31;13(3):441-454. doi: 10.5964/ejop.v13i3.1416. eCollection 2017 Aug.
  8. Beauregard S, Gilchrest BA. A survey of skin problems and skin care regimens in the elderly. Arch Dermatol. 1987;123(12):1638-43.
  9. Gilchrest BA. Skin aging and photoaging: An overview. J Am Acad Dermatol 1989;21(3 pt 2):610-3.

 

 

 





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