Como o racismo é evidenciado pela Covid-19



Como o racismo é evidenciado pela Covid-19

16 de julho de 2020
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Outros olhares

“A carne negra é a mais barata do mercado”. A frase, da canção “A carne”, composição de Seu Jorge que ficou conhecida na voz de Elza Soares, se escutada, causa indignação, é ainda mais indigesta quando percebemos que retrata a realidade de muitas esferas da sociedade. Sobretudo em tempos de um vírus que não escolhe sexo, cor ou classe social, mas que, na prática, segundo dados informados pelo Sistema Único de Saúde, por meio da base de dados abertos OpenDATASUS, tem matado mais negros e pobres no Brasil. 

Desde o início da pandemia, uma situação se repete ao redor do mundo: pessoas se contaminam, são tratadas e se curam. Entre o diagnóstico e o tratamento (com o devido isolamento), entretanto, o contato com outras pessoas acontece “naturalmente”. No Brasil, de acordo com estudo realizado pela Fiocruz e pela University College London apontou que o novo vírus entrou no país vindo de vários pontos da Europa, dos Estados Unidos e da Oceania. No entanto, independentemente da porta de entrada do vírus, os mais atingidos são os que tiveram contato com ele em um segundo momento, por meio de contágio direto – no Rio de Janeiro, por exemplo, houve o caso de uma mulher que veio do exterior infectada e não faleceu, mas teve contato com uma funcionária, idosa e sem plano de saúde, que veio a óbito no dia seguinte ao da apresentação dos sintomas. 

Vítimas invisíveis
 
Para compreender o panorama dos mais atingidos pela Covid-19 é importante analisar a constituição social do país. A população menos favorecida do Brasil é composta, quase majoritariamente, por negros e pardos que, em sua maioria, continuaram a trabalhar durante a pandemia, sem que pudessem aderir ao distanciamento social, principal medida recomendada pela Organização Mundial da Saúde (OMS). Essas pessoas também, normalmente, moram em casas com elevada proporção de moradores por cômodo, ou seja, em locais em que realizar o isolamento proposto para paralisar a transmissão é quase inviável. Esse conjunto de situações torna-se ainda mais cruel devido à dificuldade de acesso a alimentação de qualidade e à falta de água e saneamento que as comunidades enfrentam, o que impossibilita a higienização devida das mãos, roupas e demais superfícies de contato. 

“O que vivemos hoje com a Covid-19 e suas principais vítimas é praticamente uma resposta à condição histórica do negro no Brasil. Eles são maioria em um país que não lhes deu a devida reparação pelo que sofreram no passado. Mesmo que ao longo dos anos algumas políticas tenham promovido alguma ascensão social na vida dessa população, nenhuma foi suficientemente produtiva para igualar as desvantagens entre negros e brancos, seja no mercado de trabalho, na distribuição de rendimento, nas condições de moradia, no acesso à educação, na luta contra a violência ou na representação política. Essas características, consequentemente, se refletem no quadro epidemiológico dessa população, evidenciando iniquidades e vulnerabilidades no acesso às condições promotoras de saúde”, explica a dermatologista Sandra Durães.
 
Outro motivo que provoca maior letalidade entre negros e pardos é a falta de tratamento adequado em relação a outras enfermidades já existentes e que fazem dessas pessoas parte do grupo de risco, como as doenças crônicas: diabetes, hipertensão, obesidade, câncer etc. Dados da Pesquisa Nacional de Saúde (PNS), por exemplo, apontam que a população negra apresenta prevalências maiores de hipertensão (44,2%) e diabetes (12,7%), quando comparada à população branca (22,1% e 6,2%, respectivamente), superando a prevalência nacional de ambas comorbidades. 

“É como um efeito dominó. A pessoa adoece, não se cuida, e, quando contrai um vírus como esse, o organismo já está debilitado de alguma forma e não resiste”, pontua Sandra. 

A médica informa ainda que estudos genéticos e epigenéticos disponíveis implicaram genes relacionados a hipertensão e outras doenças cardiovasculares na regulação do sistema imunológico, ou seja, a posse de determinados polimorfismos genéticos e sua interação com o ambiente resultam no aumento ou diminuição da transcrição de moléculas determinando a imunomodulação.
 
Mas essa realidade não é exatamente uma novidade do Brasil. A disseminação de micróbios patogênicos, como vírus, historicamente tem sido ligada à desigualdade social, quando populações socialmente desfavorecidas transmitem a mais alta carga da doença, com pior prognóstico e mortalidade. 

“Na pandemia de gripe de 1918 a 1919, nos Estados Unidos (EUA), houve menor incidência cumulativa da doença entre os negros, mas maior mortalidade em relação aos brancos. Na pandemia de influenza H1N1, de 2009, houve taxa de internação mais elevada entre os pobres e aqueles que residiam em bairros pobres, bem como minorias raciais/étnicas nos EUA. Já em relação à Covid nos EUA, a população negra representou 34% de todas as mortes até a metade de abril. Além disso, a letalidade por caso também foi maior na população negra. Ou seja, sabemos quem estará sempre no lado mais fraco em enfrentamentos como o que estamos vivendo e porque mais negros morrem em situações como essas”, esclarece.
 
Como a medicina pode ajudar a mudar o panorama
 
Embora o Ministério da Saúde (MS) tenha instituído, em 2009, a Política Nacional de Saúde Integral da População Negra (PNSIPN), reconhecendo e assumindo a necessidade de criar mecanismos de promoção da saúde integral da população negra e do enfrentamento ao racismo institucional no SUS, a realidade é outra. Em 2014, o MS lançou uma campanha com o slogan “Racismo faz mal à saúde. Denuncie!”, visando envolver usuários e profissionais da rede pública de saúde na luta contra o racismo e conscientizar a população de que a discriminação racial também se manifesta na saúde. A campanha foi motivada por relatos de discriminação, e os números que revelam a expressão do racismo no SUS − como o fato de uma mulher negra receber menos tempo de atendimento médico do que uma mulher branca ou o fato de 46,2% das mulheres brancas terem acompanhantes no parto, enquanto apenas 27% das negras utilizarem esse direito, entre outros − mostram essa desigualdade.
 
De acordo com Sandra Durães, para além das políticas públicas de inclusão e equidade, a medicina pode e deve ser um instrumento para a melhoria da saúde da população negra. Como médicos, podemos dar um atendimento diferenciado quando o paciente chega até nós, estudando cada caso na sua singularidade, levando em consideração aspectos individuais e sociais para oferecer um tratamento melhor.  Dessa forma, em situações como a de agora, uma pandemia em que tudo pode ser a diferença entre a vida e a morte de uma pessoa, além da luta contra o vírus adotando as medidas sanitárias preconizadas, devemos esclarecer sobre a importância do tratamento das comorbidades que são fatores de risco  para a Covid”, diz.  

Além disso, campanhas dentro das comunidades, com médicos de família, nutricionistas e outros profissionais de saúde, podem ajudar essas pessoas que muitas vezes são desprovidas não apenas de acesso aos hospitais e tratamentos, mas também de conhecimentos que podem ser passados por campanhas e consultas periódicas dentro das comunidades.

 





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