Ser médico em tempos de inteligência artificial



Ser médico em tempos de inteligência artificial

16 de outubro de 2026
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O presidente da SBD, Dr. Carlos Barcaui, deixa uma mensagem aos associados, na qual reflete sobre a inteligência artificial aplicada à medicina.

Confira abaixo.

Caro associado (a), 

O Dia do Médico é celebrado em 18 de outubro e, diante da data, trago uma reflexão que tem aparecido com frequência: até onde as ferramentas de Inteligência Artifical poderão chegar? A Dermatologia talvez seja um dos melhores campos para observar essa transformação. Trabalhamos intensamente com imagens e reconhecimento de padrões, mas sabemos que uma imagem nunca conta, sozinha, toda a história de um paciente. 

Em 2017, um estudo publicado na Nature tornou-se um divisor de águas. Uma rede neural treinada com quase 130 mil imagens e mais de duas mil doenças dermatológicas alcançou desempenho comparável ao de dermatologistas na classificação de algumas lesões cutâneas. Desde então, aquilo que parecia pertencer ao futuro entrou definitivamente em nossos consultórios, congressos e salas de aula. De lá para cá, os avanços foram impressionantes. A inteligência artificial demonstrou excelente capacidade de interpretar imagens dermatológicas. Mas aprendemos também a olhar esses resultados com espírito crítico. 

Um trabalho publicado recentemente, já em condições próximas da prática clínica, mostrou algo particularmente interessante. Um modelo moderno de inteligência artificial superou médicos menos experientes, mas dermatologistas com mais de dez anos de experiência tiveram desempenho superior ao de todos os modelos avaliados. Talvez, então, estejamos fazendo a pergunta errada. 

Não me parece tão importante saber quem vence uma disputa entre médico e máquina. Interessa saber o que acontece quando trabalhamos juntos. A evidência mostra que uma ferramenta de inteligência artificial de boa qualidade pode melhorar o desempenho diagnóstico do médico, especialmente daquele com menor experiência. Mostra também que uma informação errada fornecida pela máquina pode induzir ao erro inclusive especialistas. 

A tecnologia não diminui a importância da formação médica. Faz exatamente o contrário. Quanto mais poderosa for a ferramenta, maior deverá ser a capacidade de quem a utiliza para interpretar, contextualizar, questionar e, quando necessário, contrariá-la. É também por isso que vejo com preocupação outra face dessa revolução, sobre a qual ainda falamos pouco. Chamamos de digital algo que parece não ocupar espaço e não consumir recursos. Mas a inteligência artificial depende de uma infraestrutura muito concreta. Grandes centros de processamento consomem quantidades expressivas de energia e água. O chamado extrativismo digital está, portanto, intimamente ligado a exploração ambiental. Para coletar, armazenar e processar volumes crescentes de dados, extraímos também recursos do mundo físico. 

Na Medicina, existe uma responsabilidade adicional. A matéria-prima digital também trata-se de dados, imagens, textos e conhecimento produzidos por médicos e, principalmente, informações de pacientes. Precisamos perguntar de onde vêm esses dados, quem está representado neles, quem se beneficia de seu uso e quais consequências surgem quando determinados grupos não estão adequadamente representados. Na Dermatologia isso já é concreto. Algoritmos que apresentavam excelente desempenho em seus bancos originais tiveram queda importante quando avaliados em populações mais diversas, especialmente em peles mais escuras. Quando os dados utilizados para treinamento se tornaram mais diversos, a disparidade diminuiu. 

Precisamos participar da discussão, produzir conhecimento, formar médicos capazes de utilizar criticamente essas ferramentas e defender princípios éticos que não podem ser terceirizados para um algoritmo.  

Em 2017, perguntávamos se uma máquina conseguiria diagnosticar como um dermatologista. Hoje, prefiro outra pergunta: quanto melhor pode diagnosticar o dermatologista que sabe utilizar bem a inteligência artificial? E, neste Dia do Médico, acrescentaria uma segunda: que médicos queremos ser em um mundo cada vez mais mediado por algoritmos? 

As ferramentas certamente mudarão. Nossa maneira de aprender, diagnosticar e tratar também. Espero que saibamos incorporar o que elas têm de melhor sem abrir mão daquilo que nenhuma máquina pode assumir por nós: a responsabilidade pela decisão, o compromisso com quem nos procura e a consciência de que, antes de qualquer tecnologia, cuidamos de pessoas. 

Vale ressaltar que o Conselho Federal de Medicina (CFM) publicou a Resolução nº 2.454/2026, que estabelece regras para o desenvolvimento, a governança e a utilização de sistemas e aplicações de Inteligência Artificial na Medicina.  

Parabenizo todos os colegas associados pelo Dia do Médico e desejo que possamos continuar exercendo nossa profissão com dedicação, sempre zelando pela segurança e pelo bem-estar de nossos pacientes. 

Dr. Carlos Barcaui, 

Presidente da SBD 

 

 





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