SBD estimula formação de dermatologistas e residentes para atendimento de demandas específicas da população transgênero no País




13 de julho de 2021 0

A abordagem de temáticas e necessidades específicas da população transgênero está sendo incorporada aos programas de formação de médicos especialistas na prevenção, diagnóstico e tratamento de doenças de pele, cabelos e unhas. A iniciativa é da Sociedade Brasileira de Dermatologia (SBD) que, com o apoio de serviços de Residência Médica credenciados, passou a estimular essa qualificação durante essa fase. Atualmente, há 90 desses cursos ligados à entidade, com aproximadamente 900 residentes inscritos.

Além desse cuidado com os futuros especialistas, a SBD também tem realizado iniciativas com foco nos mais de 10 mil dermatologistas brasileiros já em atividade. O atendimento à população transgênero no País tem sido discutido em congressos e atividades de educação continuada. Isso acontece porque esse segmento populacional, sobretudo durante a fase de transição, está sujeito a uma série de manifestações dermatológicas que exigem um profissional capacitado para atendê-lo.  
“Acreditamos numa dermatologia de todos, e para todos. Nesse sentido, os médicos da nossa especialidade estão sempre buscando aperfeiçoamento técnico e clínico para dar respostas aos pacientes em suas demandas. É que acontece também nas questões envolvendo a população trans, que merece respeito e um atendimento adequado às suas necessidades”, disse o presidente da SBD, Mauro Enokihara.

As peculiaridades da assistência aos transgêneros resultam quase sempre de efeitos dos tratamentos hormonais, estéticos e cirúrgicos para feminização ou masculinização da face e do corpo. Por exemplo, as mulheres trans, que usam estradiol em combinação com um antiandrogênico (espironolactona ou um inibidor da 5-alfa redutase), podem apresentar redução rápida e persistente na produção de sebo e, por isso, desenvolver xerodermia, prurido e alterações eczematosas.

Além disso, é muito comum que mulheres trans procurem tratamentos para remoção de pelos, como a depilação a laser, e outros procedimentos minimamente invasivos para feminização da face. Já entre os homens trans, que usam testosterona com regularidade, são frequentes os quadros de alopecia androgenética e de acne. O uso incorreto de binders, ou de outros métodos para comprimir e ocultar os seios, também pode acarretar problemas na pele.  

Procedimentos – Além da hormonioterapia, alguns indivíduos trans podem necessitar do suporte dos médicos dermatologistas para reparar cicatrizes inestéticas, deixadas por procedimentos cirúrgicos de afirmação de gênero, como a retiradas das mamas (mastectomia), em homens trans, e a depilação pré-operatória nas mulheres trans que passarão pela vaginoplastia. Os dermatologistas também são capazes de tratar dermatoses nas neogenitálias e de lidar com outras questões comuns enfrentadas pela população transgênero, como as possíveis complicações do uso de silicone industrial.

“Hoje em dia esses problemas continuam acontecendo, pois parte das mulheres trans ainda vive marginalizada, devido ao estigma social e com dificuldade de acesso aos serviços de saúde. Isso as leva a recorrerem a não médicos no processo de transição, iniciado por conta própria, por meio do uso de hormônios sem prescrição e de injeções de silicone industrial, principalmente como preenchedor corporal”, disse Marcio Serra, um dos coordenadores do Departamento de Infecções Sexualmente Transmissíveis e Aids da SBD e professor colaborador do Serviço de Dermatologia do Hospital Universitário Gaffrée Guinle (RJ) da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (Unirio).

Infecções – Segundo aponta Márcio Serra, a maior parte das desordens dermatológicas nos transgêneros estão relacionadas à terapia hormonal, que também pode causar xerose e eczemas nas mulheres trans, além de complicações em cirurgias de afirmação de gênero. No entanto, o cuidado dermatológico dessas pessoas não se limita apenas aos aspectos da transição.

“Mulheres trans, por exemplo, têm maior risco de contaminação por infecções sexualmente transmissíveis (ISTs) e HIV, que podem apresentar sinais e sintomas por meio de manifestações dermatológicas”, completa Felipe Aguinaga, também coordenador do Departamento de IST e Aids da SBD e chefe do Ambulatório de Dermatologia e Diversidade de Gênero, do Instituto de Dermatologia Professor Rubem David Azulay, da Santa Casa de Misericórdia do Rio de Janeiro (RJ).

Desafios – Pessoas trans possuem as mesmas necessidades básicas de saúde de quaisquer outras, mas precisam de uma série de cuidados que exigem competências adicionais do médico dermatologista, sem contar com maior tato no processo de atendimento, afirmam os especialistas.

Infelizmente, em decorrência do despreparo de alguns profissionais de saúde para acolher essa parcela da sociedade, ainda há relatos de situações de homofobia e transfobia. Por isso, os coordenadores do Departamento da SBD acreditam que há pacientes que evitam procurar o Sistema Único de Saúde (SUS) com receio de serem vítimas de preconceito e discriminação. Estudos apontam que dois terços dos pacientes LGBTQIA+ referem problemas desse tipo, inclusive pela dificuldade de se identificarem.

“É preciso ter sensibilidade na hora de colher informações, como orientação sexual, identidade de gênero e comportamentos sexuais, já que são dados clinicamente relevantes. Algumas recomendações simples têm amplo impacto na melhora da relação com esses pacientes: respeito ao nome social, uso de pronomes corretos, utilização de formulários que sejam inclusivos e oferecimento de opções de identidade de gênero não binárias (pessoas que não se identificam com o gênero masculino ou o feminino)”, afirma Aguinaga.

Serra lamenta a falta de médicos e membros das equipes de saúde preparados para lidar com as questões particulares da população LGBTQIA+. São profissionais às vezes com dificuldades de assimilar e tratar as demandas específicas. Por isso, Aguinaga considera “essencial a promoção de iniciativas educacionais para que esse grupo – médicos, enfermeiros, fisioterapeutas, nutricionistas, psicólogos, dentistas e até os integrantes das equipes administrativas, entre outros – sejam capacitados para lidar com esses pacientes, oferecendo-lhes a melhor assistência possível”.

População trans – Em janeiro, a revista científica Nature, publicou artigo que afirma que 1,9% da população brasileira (aproximadamente 4 milhões de pessoas) se identifica como transgênero ou não binário. Apesar desse grande número, os canais para atendimento das demandas específicas são poucos. Segundo o Ministério da Saúde (MS), hoje existem apenas cinco centros no SUS que oferecem atendimentos complexos à população trans, como cirurgias de redesignação sexual e acompanhamento pré e pós-operatório.

São eles: Hospital das Clínicas de Porto Alegre, no Rio Grande do Sul; Hospital das Clínicas da Universidade Federal de Goiás, em Goiânia; Hospital das Clínicas da Universidade Federal de Pernambuco, em Recife; Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo, na capital paulista; e Hospital Universitário Pedro Ernesto, no Rio de Janeiro. Devido à insuficiência na rede pública para a realização desse e de outros tipos de procedimentos, muitas pessoas trans recorrem ao atendimento na rede particular para agilizar o processo de transição.

Por isso, a demanda tem sido cada vez mais comum nos consultórios dermatológicos. Diante desse panorama, a SBD investe na atualização dos seus especialistas para viabilizar assistência de excelência à população trans, considerando suas necessidades e demandas específicas.  

Na avaliação de Felipe Aguinaga, é importante que a população trans consiga reconhecer os médicos dermatologistas como profissionais prontos e capacitados para amenizar as disparidades de saúde e melhorar sua qualidade de vida. Afinal, aponta, é uma especialidade com interface direta com a autoestima e com os efeitos decorrentes do processo de afirmação de gênero que tem inúmeras interseções com a pele.

“Há compromisso crescente de todas as áreas da medicina para compreender e melhorar a saúde e o bem-estar das pessoas trans e de outras minorias. Neste sentido, a dermatologia, em seus diversos campos de atuação, desponta como uma especialidade essencial para acolher várias dessas demandas”, salienta o especialista que, apenas na unidade pública onde trabalha, recebe cerca de 30 pacientes com esse perfil por mês.

Conexão SBD – O tema “Dermatologia e Saúde LGBT” também foi abordado na primeira edição do Conexão SBD, iniciativa da entidade que discute, por meio de encontros online, tópicos de interesse da especialidade. As principais infecções sexualmente transmissíveis (IST) na população LGBT, aspectos dermatológicos no paciente transgênero e procedimentos cosmiátricos foram alguns assuntos debatidos pelos médicos dermatologistas Felipe Aguinaga e Márcio Serra. Também esteve em pauta a necessidade de se ter formas de promoção de cuidado mais acolhedoras para pacientes que fazem parte de minorias sexuais ou de gênero.

“Como identidade de gênero e a orientação sexual são informações autodeclaradas, durante o atendimento é importante o médico evitar fazer suposições. Enquanto identidade de gênero se refere a como o indivíduo se identifica (masculino e/ou feminino), a orientação sexual está ligada a como o indivíduo se relaciona sexual e afetivamente”, explica Aguinaga.

Clique aqui para assistir ao Conexão SBD

Em 2011, o Ministério da Saúde reconheceu identidade de gênero e orientação sexual como determinantes sociais de saúde. Por meio da Política Nacional de Saúde Integrada População LGBT, propõe diferentes ações de eliminação das iniquidades e desigualdades dessa população e de acolhimento das necessidades de saúde.

“Pessoas que fazem parte de minorias sexuais são mais vulneráveis ao HIV e às infecções sexualmente transmissíveis, isso porque essas pessoas têm práticas sexuais e hábitos específicos. Se nós, como médicos, desconhecermos essas necessidades, podemos deixar de fazer alguns diagnósticos”, informa.


27 de janeiro de 2020 0

JSBD – Ano 23 – N.06 – 01 – DEZEMBRO-FEVEREIRO

Dra. Ivonise
Membro da Sociedade Brasileira de Dermatologia |
Mestre e doutora em Dermatologia pela Universidade Federal da Bahia (UFBA)

Em 2018, uma pesquisa do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) revelou que cerca de 19 milhões de brasileiros se declaravam negros no país, um número pequeno se considerarmos que a população brasileira ultrapassa 210 milhões de pessoas. Mesmo sendo menos expressivo do que se imaginava, esse número foi 32,2% maior em relação à mesma pesquisa realizada em 2012. O aumento de pessoas que se declararam negras mostra que, de certa forma, políticas afirmativas sobre cor e raça têm desempenhado papel importante na conquista de espaço na sociedade. Ainda há, porém, um longo caminho a percorrer em diferentes campos, a medicina incluída.
 
As faculdades de medicina, em sua maioria, ainda hoje não abordam as diferenças de cor e etnia. Isso pode ser atribuído à pequena proporção de alunos negros nos cursos médicos. De algum tempo para cá, entretanto, até pelo fato de mais estudantes negros estarem chegando aos cursos de formação, a especialização nas particularidades da pele negra tem chamado a atenção de profissionais da área, especialmente devido à demanda da população em busca de tratamentos.

 

Tratamentos
Não há exatamente um tratamento dermatológico exclusivo para a pele negra. Ao se deparar com uma pele doente, caberá ao especialista avaliar se a cor e a quantidade de melanina podem ou não influenciar a aparência da lesão ou aspectos específicos do tratamento. “A miscigenação é muito grande no Brasil, e a cor da pele não é um bom indicativo de etnia ou de genética de origem africana. Por isso, aliás, muitas vezes há o aparecimento de dermatoses ditas da pele negra em pessoa de cor branca”, explica Ivonise Follador, médica dermatologista da SBD e mestre e doutora pela Universidade Federal da Bahia (UFBA).
 
Embora a expressão “especialista em pele negra” não seja tão bem aceita pela classe médica – especialmente no Brasil, cuja população é tão miscigenada –, é preciso entender que mesmo com doenças iguais, os tratamentos indicados para pacientes com pele negra ou branca podem ser diferenciados. De acordo com Ivonise Follador,  enfermidades que levam a discromias, por exemplo, na pele negra ou miscigenada assumem frequentemente aspectos diferentes daqueles que mostram em pessoas de  pele branca. “No caso de vitiligo, o contraste é maior, chamando muita a atenção e causando impacto maior. Por outro lado, como tem mais melanina nas bordas, as repostas ao tratamento costumam ser mais rápidas e melhores. No caso do melasma, o contraste não é tão grande, mas é muito mais difícil de tratar. Na psoríase não se encontram tantos eritemas e as lesões podem assumir aspecto mais escuro, violáceo ou esbranquiçado”, detalha a médica, lembrando, porém, que muitas das alterações de manchas escuras na pele negra, como escurecimento peribucal, em mucosas e ao redor de unhas, são consideradas normais ou fisiológicas pela dermatologia.
 
Ainda sobre as especificidades das dermatoses na pele negra, Ivonise afirma que há muitos diagnósticos complexos, como a micose fungoide hipocromiante, que é mais comum em afrodescendente e que muitos médicos ainda diagnosticam como desidratação da pele ou eczematide. “Poderíamos falar também de algumas dermatoses um pouco mais frequentes em negros, como a dermatose papulosa negra, a hipercromia pós-inflamatória, os queloides, as úlceras de anemia falciforme, a pseudoacantose nigricante e a foliculite queiloidiana da nuca. E os especialistas devem ficar atentos também à idade desse paciente negro, já que na fase mais avançada da vida costuma-se ter a pele mais espessa e seca, bem como dificuldades na produção de vitamina D, além de tendência a manchas e queloides. “Esses aspectos devem ser muito bem observados e cuidados com especificidade”, esclarece a dermatologista.
 

Beleza
Importante destacar que os valores e as noções de beleza definidos pela estética branca dominante estão sendo questionados mais do que nunca pela sociedade. No contexto da medicina, muitas pessoas negras que procuram tratamentos estéticos com médicos dermatologistas não buscam simplesmente afinar traços ou clarear a pele como forma de imitação da beleza branca. Ao contrário: estão procurando alternativas saudáveis de beleza, que, segundo a intelectual negra e teórica feminista Bell Hooks, “pode ser encontrada em qualquer forma de negritude que não é uma imitação de branquitude”. Cada etnia possui características próprias e tem a sua beleza. “E cabe a nós, médicos, escutar o que aquele paciente tem a dizer e prescrever procedimentos adequados e que, acima de tudo, respeitem a história de cada um”, frisa a médica Ivonise Follador.

 


6 de agosto de 2019 0

JSBD – Ano 23 – N.03 – 04

O atendimento humanizado e direcionado para cada paciente é um dos principais valores defendidos pela medicina. Isso envolve todo tipo de paciente, incluindo os transgêneros – pessoas com as mesmas necessidades básicas de saúde de quaisquer outras, mas que experimentam muitas disparidades de cuidados, exigindo competências adicionais do profissional, sensibilidade e formação dedicada. Mesmo com avanços em ações e políticas públicas, as desigualdades são amplificadas pelo fato de que muitos pacientes relutam em interagir com o sistema de saúde devido ao preconceito e a discriminação com base na identidade e expressão de gênero, orientação e comportamentos sexuais. Tal fato também se manifesta em vários espaços da sociedade contemporânea.
 
Na Sociedade Brasileira de Dermatologia (SBD), as discussões sobre essa realidade estão cada vez mais em pauta, e a temática LGBT tem sido divulgada em seus encontros científicos. Um exemplo é a mesa de debate Saúde LGBT, do DermatoRio 2019, que abordará as infecções sexualmente transmissíveis (ISTs) na população LGBT, bem como os aspectos dermatológicos em pacientes transgêneros. Um dos participantes é o dermatologista Felipe Aguinaga, do Ambulatório de Dermatologia e Diversidade de Gênero, do Instituto de Dermatologia Professor Rubem David Azulay. Na palestra “Aspectos dermatológicos no paciente transgênero”, o médico levantará importantes questões para melhora na qualidade do atendimento ao paciente trans, como as complicações da hormonioterapia em homens e mulheres desse segmento, complicações relacionadas ao uso de binders e silicone industrial, dermatoses das neogenitálias, entre outros assuntos.
 
Ele comenta o atual preparo do dermatologista quanto aos cuidados de afirmação de gênero, seja por meio de medicina e procedimentos relacionados à transição ou pelo gerenciamento de complicações da terapia de afirmação hormonal:
 
“Nós, como dermatologistas, temos em nosso arsenal diversas ferramentas para auxiliar a comunidade transgênero em seu processo de transição. Procedimentos estéticos para feminização ou masculinização da face e do corpo, procedimentos para remoção ou crescimento de pelos, tratamento de cicatrizes cirúrgicas, manejo da acne, da alopecia e de outras complicações da hormonioterapia. O campo de atuação é amplo, e o dermatologista já está habituado a lidar com a maioria dessas questões no seu dia a dia. Temos, portanto, muito a oferecer à comunidade trans em sua busca por autoestima, qualidade de vida e saúde. O processo de afirmação de gênero tem inúmeras interseções com a pele, e nosso papel como especialistas na prestação desses serviços essenciais para essa população deve ser afirmado, divulgado e exercido com excelência”.
 
No entanto, ainda são muitos os problemas para alcançar esse alto nível esperado no atendimento do público trans, como encontrar com mais frequência literatura ampla sobre o assunto. “Os dermatologistas, em especial, têm uma perspectiva única e especial em relação às necessidades da população LGBT, tanto do ponto de vista clínico quanto estético. Conhecer seus aspectos dermatológicos específicos é essencial para prover uma assistência de qualidade. A literatura científica relacionada às questões dermatológicas desse grupo, porém, ainda é escassa, embora o número de publicações sobre o tema tenha aumentado nos últimos anos”, comenta.
 
Segundo Aguinaga, a maior parte dos artigos disponíveis sobre o assunto refere-se ao uso de preenchedores ilícitos e infecções sexualmente transmissíveis. “Mas os aspectos da saúde influenciados pela orientação sexual e pela identidade de gênero em que o dermatologista pode atuar são muito mais abrangentes”, salienta.

Medo de julgamento e discriminação impactam a morbimortalidade da população
O medo de ser julgado, a vergonha e a discriminação por identidade de gênero ou orientação sexual fazem com que esses pacientes evitem buscar assistência médica, o que impacta negativamente na sua saúde. De acordo com Aguinaga, pesquisas apontam que dois terços dos pacientes LGBT referem já ter sido vítimas de homofobia ou transfobia em serviços de saúde.
 
“A relutância em buscar assistência médica por esses motivos são algumas das várias barreiras que essas pessoas enfrentam e que impacta negativamente a morbimortalidade dessa população. É essencial a promoção de iniciativas educacionais para que os profissionais de saúde sejam capacitados e sintam-se preparados para lidar com esses pacientes e para fornecer a melhor assistência possível”, realça. Dessa forma, o dermatologista está mais bem preparado para atendê-los quando cria um ambiente em que o paciente se sinta bem-vindo e acolhido.
 
“Uma das grandes barreiras enfrentadas pela população LGBT é a dificuldade de encontrar médicos capacitados para lidar com suas questões particulares e sensíveis a suas demandas. Muitos pacientes resistem em procurar assistência médica por conta de experiências prévias insatisfatórias. Esse não é um assunto abordado na formação da maioria dos médicos; por isso é necessário um esforço extra para buscar esse conhecimento e manter-se atualizado. Felizmente, tem aumentado a disponibilidade dessas oportunidades educacionais, incluindo palestras sobre saúde LGBT nos congressos de dermatologia e artigos científicos nas principais revistas científicas dermatológicas”, ressalta.

Uma medicina que dialoga com a população sem distinção
Para viabilizar a excelência no atendimento dermatológico desses indivíduos, é fundamental que o profissional saiba que a orientação sexual, a identidade de gênero e os comportamentos sexuais são conceitos diferentes.
 
“É preciso ter sensibilidade na hora de colher essas informações, já que são muitas vezes clinicamente relevantes. Algumas recomendações simples têm amplo impacto na melhora da relação com esses pacientes: respeito ao nome social, usar pronomes corretos, utilizar formulários que sejam inclusivos e ofereçam opções de identidade de gênero não binárias. É fundamental tratar todos os pacientes com dignidade e respeito”, destaca.
 
Sobre a influência das interseções de gênero, raça, etnia, status socioeconômico nas disparidades de saúde das populações LGBT, Aguinaga comenta que a população LGBT é heterogênea, composta por indivíduos com identidades diversas e únicas. Logo, ao lidar com o paciente, o médico deve reconhecer suas experiências vividas, sem pré-julgamentos.
 
“Somente com uma abordagem interseccional de todas essas variáveis (identidade de gênero, raça, orientação sexual, status socioeconômico) são reconhecidos determinantes sociais de saúde, permitindo, assim, otimizar a assistência aos pacientes que atendemos”.

DermatoRio contemplará palestras sobre saúde LGBT
Segundo o médico, que ministrará a aula “Aspectos dermatológicos no paciente transgênero” a ser realizada na manhã do dia 13 de setembro, no DermatoRio 2019, o objetivo da apresentação é identificar e esclarecer conceitos e definições do campo de gênero e sexualidade, bem como a terminologia atualmente utilizada na literatura científica, além de abordar identidade de gênero como um determinante social de saúde.  
 
“Também vamos orientar sobre aspectos gerais na consulta do paciente trans e expor as principais questões enfrentadas pela população transgênero na esfera da dermatologia clínica: complicações da hormonioterapia em homens e mulheres desse segmento, complicações relacionadas ao uso de binders e de silicone industrial, dermatoses das neogenitálias, entre outros. Além disso, iremos compartilhar nossa experiência no Ambulatório de Dermatologia e Diversidade de Gênero, do Instituto de Dermatologia Professor Rubem David Azulay, no Rio de Janeiro”, informa.

 


18 de junho de 2019 0

JSBD – Ano 23 – N.02 – MARÇO-ABRIL

A humanização da relação médico/paciente tem sido cada vez mais abordada dentro da medicina como forma de melhorar a resposta ao tratamento prescrito. Porém, infelizmente, nem sempre os especialistas estão preparados para dar essa atenção.
 
Médicos, terapeutas corporais e cuidadores em geral precisam estar sincronicamente conectados com aquele de quem cuidam. E, para isso, é preciso mais do que os conhecimentos técnicos e científicos. É necessário, de fato, estar disposto a se aprofundar não apenas no outro, mas em seu autoconhecimento, dedicando parte do tempo a práticas que permitam o enfrentamento de medos, dificuldades e frustrações.
 
O não cuidado consigo e o negligenciamento com a própria saúde, seja física ou mental, acaba, consequentemente, gerando um atendimento de baixa qualidade, que não valoriza as questões pessoais e as necessidades do paciente. “Quem está sendo atendido capta, com toda certeza, pela postura, pela voz, pelo jeito da pessoa olhar, que aquele médico não está bem”, pontua Marcia Senra, coordenadora do Departamento de Psicodermatologia da Sociedade Brasileira de Dermatologia. E ao perceber isso, a confiança no especialista e o resultado do tratamento passado podem não ser os esperados.
 
Para Senra, a saúde e o bem-estar do médico são de suma importância para o sucesso do tratamento com o paciente. Ela explica que, quando uma pessoa não está bem fisicamente ou com qualquer problema emocional, é difícil olhar para o outro. “É impossível estar ali, olhando para o outro com total foco e tranquilidade para colocar toda a atenção na queixa do paciente. Precisamos ouvir, olhar e examinar com muita paciência. Então, paralelamente, o especialista também tem que se cuidar”, diz.
 
A forma como cada um vai procurar o próprio bem-estar depende de si mesmo. Além dos hábitos já tão falados, como ter uma boa alimentação, praticar exercícios e fazer o que gosta – inclusive hobbies -, há no campo das terapias inúmeras opções, como meditações, terapias reichianas, constelações familiares, massoterapia, entre outras opções. Na massoterapia, por exemplo, o toque é usado para inúmeras finalidades, como terapia antiestresse, para relaxamento, na parte estética e esportiva, para melhorar as articulações etc. “O tocar é uma linguagem, uma comunicação que cria o relacionamento humano. A gente sabe que a pele, o sistema nervoso, vem do mesmo folheto embrionário. Então, a atitude do tocar induz a várias alterações neuronais, glandulares, musculares. São muitas as vantagens dessa prática para o autocuidado. Cada pessoa se adapta a um tipo e tem uma necessidade”, explica.
 
Mas há também quem não goste de ser tocado, que sinta uma sensação desagradável, uma intimidade que gera mal-estar. Para essas pessoas, a massoterapia talvez não seja a mais indicada. Por isso, Marcia diz que cada um deve buscar o seu próprio caminho, desde que o faça com o coração aberto e com a disposição de mergulhar fundo. E vai além: “A rotina médica é altamente demandante. Além dos aspectos da própria profissão, há, ainda, as pressões do dia a dia. A maneira como cada um vai lidar com os estressores faz muita diferença. Por isso, investir no autoconhecimento e não se comparar com outros profissionais é fundamental. É preciso ajustar a sua personalidade ao que quer na sua vida e fazer escolhas. Porque se não prestar atenção nessa carga, com certeza vai adoecer”, enfatiza a coordenadora da SBD.

 

 

 


27 de fevereiro de 2019 0

JSBD – Ano 23 – N.01 – JANEIRO-FEVEREIRO

Diante de um mundo em que o tempo parece estar cada vez mais acelerado, aliado ao uso massivo das tecnologias digitais, é preciso saber a hora de parar, respirar e depois continuar. Algumas estratégias podem melhorar a qualidade de vida do indivíduo, ajudar a prevenir situações de adoecimento e reduzir os casos de esgotamento mental. A técnica do Mindfulness é uma delas.

“Ao contrário do que muitos pensam, o Mindfulness não é, em sua essência, um novo tipo de meditação ou um conjunto de técnicas meditativas modernas. É antes uma proposta de experimentar a vida de forma diferente daquela com a qual muitas vezes nos acostumamos. A proposta e o desafio são o exercício de uma ‘atenção mais plena’ em tudo que fazemos, desde a forma como nos alimentamos ou cuidamos da nossa saúde até como aproveitamos nosso tempo de lazer ou nos relacionamos. É sair de um automatismo para uma maior consciência, e para isso, sim, podemos usar algumas técnicas específicas”, explica o médico psiquiatra Tiago Queiroz Cardoso*.

A atenção plena, portanto, consiste em focar no presente, evitando pensar nas possibilidades futuras. No entanto, para que isso aconteça, é preciso observar muito, bem como estar aberto para vivenciar o momento. “A atenção plena não deve ser encarada como um estado mágico ou um ponto de chegada, é muito mais um novo caminho, uma nova direção, no qual vamos aos poucos deixando de lado hábitos automáticos e cada vez nos tornamos mais ‘presentes’”, orientou o médico.

Segundo o especialista, existem práticas específicas de Mindfulness para diferentes condições, como a depressão, a ansiedade ou as doenças crônicas. Os dois programas mais conhecidos são o MBSR (Mindfulness-based stress reduction), desenvolvido no final da década de 1970 pelo médico Jon Kabat-Zinn, considerado o percussor do Mindfulness; e o MBCT (Mindfulness-Based Cognitive Therapy), criado na década de 1990, com a proposta de associar técnicas do Mindfulness e da Terapia Cognitiva Comportamental.

“O primeiro possui estudos mostrando sua eficácia na redução do estresse e ansiedade, incluído o burnout; e o MBCT demonstrou também eficácia significativa na depressão”, esclarece.

Os benefícios da prática são inúmeros a cada estudo publicado, sendo a redução do estresse um dos mais importantes. A aplicação da técnica de Atenção Plena na Medicina, direcionada ao médico, também ajuda o profissional a lidar melhor com o estresse de trabalho e ter mais qualidade de vida.

“Hoje nós sabemos como o estresse está relacionado à cascata de inflamação no organismo, processo envolvido não só na depressão e ansiedade, como em doenças cardiovasculares, autoimunes e tantas outras. A maior dificuldade é essa, a baixa percepção de risco do estresse pelas pessoas, e isso inclui nós, médicos. Às vezes não estamos atentos ao nosso estresse e nem ao dos nossos pacientes, e isso faz com que não seja uma prioridade, até que acabe se tornando uma doença. Precisamos mudar o paradigma de uma medicina de tratamento para uma medicina de prevenção, a começar por nós mesmos”, relata.

O curso-padrão tem duração de oito semanas. Durante esse tempo são praticadas diferentes técnicas de Mindfulness com o apoio de um especialista. Após aprender a realizar as atividades, é possível praticar em casa e no ambiente de trabalho, incluindo ações curtas diariamente. Elas podem ser feitas no tempo de três a cinco minutos, em qualquer lugar: no carro, no consultório, à mesa de refeição ou ao deitar-se para dormir. São conhecidas como práticas não formais.

“Diria que esse tipo de prática é tão ou mais impactante no nosso dia a dia, quando estamos acostumados a fazer tudo no automático. Como eu disse, a proposta não é um ponto de chegada, mas estar cada vez mais conscientes de que precisamos cuidar da nossa mente, reduzir o ritmo, diminuir o estresse e a sobrecarga de múltiplos estímulos no nosso cérebro”, completa Tiago Queiroz.
 

Você sabia?
Pensar nas possibilidades futuras e antecipar as consequências envolvem o córtex pré-frontal, que é a região mais desenvolvida do cérebro, e a amígdala, nosso cérebro primata, que controla comportamento e instinto.

“Fear of missing out” (“medo de ficar de fora”) é um distúrbio que aumenta a ansiedade e atrapalha o sono.

Síndrome do pensamento acelerado (SPA) ocorre quando você vai dormir, mas não consegue, porque a cabeça dispara.

Dados da OMS revelam que 9,3% da população brasileira sofre de transtorno de ansiedade, quase o triplo da média internacional (3,5%).                                  ´           ´

Experimente alguns exemplos simples de Mindfulness para exercitar essa atenção plena.

  • Tomar um banho com a mão não dominante.
  • Descansar os talheres na mesa a cada “garfada”.
  • Fazer três respirações profundas antes de checar o celular. Aliás, precisamos realmente checá-lo mais de uma vez?

 

* Tiago Queiroz Cardoso é médico psiquiatra, mestre e doutorando em Neuropsiquiatria, preceptor do Hospital das Clínicas da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e do Hospital Ulisses Pernambucano – Universidade de Pernambuco (UPE).





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